Luto: Embrapa Amapá e o Brasil perdem o pesquisador Silas Mochiutti

Pesquisador e ex chefe da Embrapa/AP Silas Mochiutti (* 1964 ✞ 2020) | Foto: Simone Pessoa

O Pesquisador e ex-Chefe Geral da Embrapa Amapá, Silas Mochiutti, 56, faleceu nesta segunda-feira (09), por volta das 12h30, no Hospital Adventista de Belém, onde encontrava-se internado desde 22 de fevereiro. Mochiutti faleceu em decorrência de complicações pulmonares. Ele ingressou na Embrapa em 1º de abril de 1987. Era casado com a professora Marilene de Oliveira Mochiutti e tinha dois filhos. O velório ocorrerá no hall da sede da Embrapa Amapá, na Rodovia Juscelino Kubitschek, em Macapá, em horário e data a serem definidos. Silas Mochiutti será sepultado em Macapá.

Engenheiro Agrônomo, com mestrado e doutorado em Sistemas Florestais, Silas Mochiutti era do quadro da Embrapa há quase 33 anos. Dedicou-se, sobretudo, a pesquisas e transferência de tecnologias de manejo e de cultivo de açaizais para agroextrativistas do Amapá e Estuário Amazônico, atuando como líder de projetos, articulador de parcerias e instrutor de de cursos práticos nas próprias comunidades. 

Silas Mochiutti – Homenagem

Silas Mochiutti, o pesquisador do campo desde sempre. Dos campos das florestas alagadas e de terra firme, somando conhecimento com ribeirinhos e assentados. Dos campos do cerrado, agregando tecnologias com produtores para o desenvolvimento da agricultura comercial sustentável. Aos 56 anos de idade, quis Deus que sua fase de semeadura na terra fosse curta aos olhos humanos e segue sua missão em outro plano. A fé em Deus nos move nessa certeza.

Paranaense radicado no Amapá, Silas Mochiutti tinha formação e atuação profissional desenvolvidas na pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Em quase 33 anos de carreira como pesquisador da Embrapa Amapá, atuou nos segmentos de pequenos e grandes produtores, agricultura comercial e de subsistência, extrativismo e recursos florestais.

Mochiutti ingressou no quadro de pesquisadores da Embrapa, via concurso público, em 1º de abril de 1987, recém-formado em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (Fcap) – atual Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Cursou o mestrado em Sistemas Agroflorestais, no Centro Agronômico Tropical de Ingestigacíon y Enseñaz (Catie), na Costa Rica. Em 2006 obteve o título de doutor em Sistemas Florestais pela Universidade Federal do Paraná, com uma tese sobre produtividade e sustentabilidade de sistemas florestais.

Fazia parte do Núcleo de Pesquisas em Recursos Florestais, atuando principalmente nos temas de melhoramento genético do açaizeiro para produção de frutos, manejo de floresta de várzeas para a produção de frutos de açaí, madeira e outros produtos, recuperação de áreas alteradas por atividades agrícolas e avaliação de espécies/genótipos para sistemas de produção agroflorestal. Atualmente, estava responsável pelo Projeto Bem Diverso no âmbito da Embrapa Amapá. O foco deste projeto são regiões situadas em municípios de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). 

Sua produção científica está registrada em dezenas de artigos em periódicos, capítulos de livros, comunicados técnicos, entre outras publicações técnico-científicas, além de orientar e integrar bancas de TCCs e dissertações de mestrado. Por meio de um convênio de cooperação entre a Embrapa e Universidade Federal do Amapá (Unifap), também exerceu a função de pesquisador orientador do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Tropical (PPGBIO) de 2009 a 2018.

Desde 2013 Mochiutti era portador de mieloma múltiplo (um tipo de câncer de medula óssea). Naquele ano ele esteve internado em hospitais de São Paulo, onde passou por ciclos de quimioterapia. Posteriormente, foi submetido a um transplante autólogo (autotransplante), quando ficou hospitalizado por 30 dias. Depois do transplante passou a ter o mieloma (doença crônica) controlado por medicação e cuidados especiais, sobretudo com alimentação.

Chefe-Geral de 2008 a 2013

No período de 2008 a 2013 Silas Mochiutti foi chefe-geral da Embrapa Amapá. Ele chegou ao cargo por meio de uma seleção pública que incluiu análise do currículo, comprovação de probidade administrativa, defesa pública de proposta de trabalho e análise do perfil gerencial. Durante sua gestão, esta Unidade da Embrapa avançou na infraestrutura e no quadro de pessoal. Na pesquisa, por exemplo, ampliou o número de pesquisadores de 16 para 31, criou a linha de pesquisa em aquicultura e pesca, o que ocasionou a contratação de cinco pesquisadores só para esta área, e a construção de um laboratório de Aquicultura e Pesca. Também foi viabilizada a construção do laboratório de Proteção de Plantas, e implementados os setores Chefia de Transferência de Tecnologias e Núcleo de Comunicação Organizacional. Nos três campos experimentais da Embrapa Amapá, a gestão de Silas Mochiutti foi responsável pela construção de escritórios e galpões, aquisição de veículos, e instalação de sistema de internet, tendo como impacto melhorias na infraestrutura e na agilidade de comunicação com a sede da Embrapa Amapá.

Trabalhos de destaque

Entre os atributos da trajetória de Mochiutti destacava-se a habilidade para liderar equipes técnicas em parcerias estratégicas e operacionais. Em 1998 ele liderou uma equipe da Embrapa Amapá e do IEPA no “Projeto Açaí”, financiado pelo PPG7/Ministério da Ciência e Tecnologia, o qual viabilizou a cartilha “Guia Prático de Manejo de Açaizais para Produção de Frutos”, destinada a produtores e técnicos, com lançamento em 2001, ocorrido no estande da Embrapa Amapá durante a 34ª Expofeira Agropecuária, no Parque de Exposições da Fazendinha / Macapá (AP). A cartilha “Guia Prático de Manejo de Açaizais para Produção de Frutos” apresenta a tecnologia de mínimo impacto para o manejo e recuperação de açaizais nativos, tendo como principais características a manutenção da diversidade florestal do açaizal, o aumento em até cinco vezes a produção de frutos e o rendimento dos produtores e o baixo investimento para implementação.

Em novembro de 2012, na qualidade de chefe-geral da Embrapa Amapá, Mochiutti liderou equipes à frente do Amazontech, um evento de exposições e capacitações em ciência, tecnologia e negócios para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, realizado em parceria com o Sebrae e Unifap, em Macapá. Na época, ele declarou: “A Embrapa usa esse evento para demonstrar para a sociedade, políticos, pequenos empresários e produtores, que existem tecnologias para melhorar a vida e que se agregam ao campo, no entanto, muitas vezes, não se consegue fazer isso, por várias situações. Essa é a necessidade da nossa equipe querer mostrar conhecimento e transformar isso no ganho social e econômico, como bem ambiental para a sociedade. Esse é nosso papel, e esperamos que a partir deste evento possamos ver as possibilidades para gerar desenvolvimento e melhorar nossa qualidade de vida no Amapá”.  

Manejo de açaizais nativos

Durante mais de duas décadas, Silas Mochiutti dedicou-se a pesquisas e a viabilizar a transferência da tecnologia de manejo de açaizais para centenas de agroextrativistas do Amapá e Estuário Amazônico, atuando como facilitador de cursos práticos nas próprias comunidades. “No Amapá, o manejo de açaizais nativos tem se tornado referência das comunidades e municípios. O curso já foi aplicado em vários lugares. O plantio nas várzeas, por exemplo, quando há a ocorrência de cobertura florestal, é possível fazer o manejo da vegetação visando o aumento da população de açaizeiro ou o enriquecimento com o plantio de mudas dessa e de outras espécies de interesse comercial, conciliando, de modo racional e equilibrado, a proteção ambiental com o rendimento econômico”, explicava Silas.         

Uma das áreas de trabalho era o arquipélago do Bailique, iniciado em 2001. Por meio do projeto Probem foram realizadas ações de transferência de tecnologias, especialmente de manejo de açaizais nativos (capacitação de manejo e estabelecimento de Unidades Demonstrativas), sistemas agroflorestais para recuperação de áreas alteradas com açaizeiros e fornecimento de sementes selecionadas de açaizeiros com características superiores quanto a produção de frutos e época da safra. Estes trabalhos beneficiaram diretamente cerca de 300 produtores no Bailique. Em 2015, Mochiutti observava com satisfação os resultados: “O Bailique tornou-se um importante fornecedor de frutos de açaí para os mercados de Macapá e Belém, com um substancial aumento da renda daquela população ribeirinha. Quando iniciamos o trabalho lá, a produção era muito baixa, inclusive em algumas comunidades não havia produção nem para o abastecimento local em alguns períodos do ano (aí polpa de açaí de Macapá), devido a intensa exploração do palmito desta espécie”, comparou o pesquisador. 

De 2016 aos dias atuais, este trabalho teve continuidade por meio dos projetos Bem Diverso, TecFruti, MFE (Manejo Florestal Extrativismo) e Açaí Ação, período em que Mochiutti esteve à frente pessoalmente das capacitações que beneficiaram diretamente 1.841 extrativistas de várias comunidades dos municípios de Afuá, Gurupá, Chaves, Anajás, Pedra Branca do Amapari, Macapá, Mazagão (Pará e Amapá) e do município de Amapá, no estado do Maranhão. Para 2020, Silas já havia preparado o material e articulado equipes para realizar menos 5 novas capacitações e 6 dias de campo. Em cada local em que foi realizada uma capacitação, também foi instalada um Unidade de Referência de Tecnologia (URT) de Manejo de Açaizais Nativos.

Homenagem na Assembleia Legislativa

Em 2014, por ocasião dos 40 anos de fundação da Embrapa, a Assembléia Legislativa do Estado do Amapá realizou uma sessão solene, e durante o evento Silas Mochiutti foi o empregado homenageado representando os demais funcionários, em reconhecimento a importância e impactos das pesquisas que resultaram na tecnologia do manejo de mínimo impacto do açaizal de floresta de várzea. Na sessão solene, recebeu do então chefe-geral da Embrapa Amapá, Jorge Yared, uma placa alusiva ao reconhecimento de sua dedicação à Embrapa.

Infância e juventude

Silas Mochiutti nasceu na zona rural de Rolândia (PR), onde iniciou a educação infantil aos seis anos de idade. Em 1974, devido a dificuldades econômicas com o cultivo do café na região noroeste do Paraná, os pais de Mochiutti migraram para Altamira, no Pará, atraída pelos incentivos do governo federal à colonização da recém-aberta Transamazônica, a BR-230. A família adquiriu uma propriedade próxima da cidade, para que os filhos pudessem estudar e dedicaram-se ao cultivo do cacau e de fruteiras.      

Silas cursou o ginasial em uma escola pública de Altamira/PA, que ficava localizada a 6 km da casa da família. Aos 14 anos, passou a morar com parentes em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, para dar continuidade aos estudos. O ensino médio foi concluído em Curitiba/PR. Neste período longe da família, trabalhou como office-boy em escritórios de advocacia e de contabilidade e como embalador numa indústria de autopeças.

Em 1983, morando em Altamira novamente, foi aprovado no vestibular para Agronomia. Durante o curso, conseguiu uma bolsa de monitoria, o que facilitou sua manutenção em Belém. Estagiou em várias instituições, inclusive na Embrapa sediada no Pará e formou-se em dezembro de 1986. No último semestre da faculdade, foi aprovado no concurso da então Unidade de Execução de Pesquisa em Âmbito Territorial de Macapá (atual Embrapa Amapá) e contratado em abril de 1987.

(*) Trechos do discurso de posse como chefe-geral da Embrapa-AP, em 12 de junho de 2008

“A trajetória da minha vida é marcada por desafios. Como filho de migrante, o novo sempre me fascinou. Para estudar percorria diariamente, a pé ou de bicicleta, os seis quilômetros que separavam nossa pequena propriedade rural da escola na cidade. A aprovação no vestibular e depois no concurso da Embrapa, foram grandes desafios que me impus e os venci”.

“Orgulho-me de haver participado de vários momentos importantes da Embrapa, na construção de sua história, que nos possibilitou chegar hoje neste cargo. Sinto-me honrado em fazer parte desta empresa, e especialmente emocionado porque aqui no Amapá, construí toda minha carreira profissional. Nesta terra, fui recebido por um povo hospitaleiro, constituí minha família e aqui nasceram os meus filhos. Saí daqui somente para cursar o mestrado e o doutorado, mas voltei”.

“Ninguém é construtor sozinho do tempo presente e nem da sua própria história. A Embrapa Amapá tem suas bases assentadas no trabalho de muitos outros colegas, com seus erros e acertos. Quero fazer uma deferência especial ao meu antecessor mais recente, o pesquisador Newton de Lucena, agora trabalhando na Embrapa Roraima, que conduziu, juntamente com sua equipe, nosso centro de pesquisa por quase quatro anos e nos deixou avanços em diversos segmentos. A Embrapa Amapá de hoje é fruto de trajetórias de técnicos que fazem os 26 anos deste centro de pesquisa. Nós acreditamos na ciência, no Amapá, na Amazônia, no Brasil. Estou ciente que este é um cargo transitório, mais importante do que o dirigente é a sociedade, é a instituição e seus propósitos. Serei sempre pesquisador e, com muita honra, um servidor público”.

 “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;” (Eclesiastes 3:1-4)

Família

Silas Mochiutti com a esposa Marilene e os filhos Danilo e Eric no estande da Embrapa na Expofeira | Foto: Aline Furtado

(*) Uma homenagem de todos os empregados e colaboradores da Embrapa Amapá

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