Preço da carne no Brasil: o que a China tem a ver com isso?

Foto: BeefPoint (zoom)

A carne, assim como qualquer produto disponível no mercado, está suscetível à Lei da Oferta e da Procura, explicada por Adam Smith, no livro A riqueza das nações, ou seja, o preço atende às relações entre o número de pessoas que procuram comprar um produto ou serviço, em determinado período, e o quanto possui deste mesmo produto ou serviço sendo ofertado no mercado. Quanto à oferta, a relação é inversamente proporcional: pouca oferta = preços altos; muita oferta = preços baixos. Quanto à procura, a relação é diretamente proporcional: pouca procura = preços baixos; muita procura = preços altos.

Dos diversos fatores existentes na elevação do preço da carne, selecionamos três principais que possuem relação com a economia chinesa, sendo os dois primeiros no sentido da alteração da procura pelo produto, elevando o consumo e pressionando os preços para cima, e o último no sentido da alteração da oferta do produto, diminuindo o acesso e pressionando os preços, também para cima.

Entendendo a China

O país asiático possui a maior população do planeta com 1,3 bilhão de habitantes e representa um dos maiores mercados consumidores do mundo, em uma economia que cresce a índices variáveis de 5% a 15% ao ano desde a década de 1990, fator que contribui para um forte processo de urbanização que levou mais de 400 milhões de chineses a trocarem o campo pelas cidades, nos últimos 15 anos, na busca de trabalhos com maior remuneração.

Urbanização e aumento do poder de compra

O fenômeno da forte urbanização se constitui no primeiro fator para a elevação do preço da carne, pois, puxada pela criação das Zonas Econômicas Especiais, contribuiu com o milagre econômico chinês, que tirou mais de 500 milhões de pessoas da pobreza, e tem como consequência a elevação do poder de compra destas pessoas que passam a consumir mais e melhor, principalmente quando se trata de alimentos, intensificando ou mesmo incluindo proteínas de origem animal e processados em suas dietas.

Mudança na estrutura da dieta chinesa

A mudança na estrutura da dieta da população chinesa é o segundo fator que impacta no preço da carne, afinal, a vida moderna nas cidades traz consigo a necessidade de uma maior rapidez no ato de se alimentar pelo curto espaço de tempo nos intervalos de trabalho e uma vida mais corrida, fazendo introduzir o fest food nos hábitos alimentares, a exemplo de hambúrguer, salsicha, mortadela, nugget e outros, demandando ainda mais pela oferta de carne.

PSA – Peste Suína Africana

A doença afetou fortemente o rebanho suíno chinês no início de 2019, trazendo a perda de 21% do mesmo, o que representa 143,6 milhões de unidades, reduzindo de 683,8 milhões para 540,2 milhões de unidades em todo o país. Isso fez com que o equilíbrio entre a oferta e a procura entrasse em desequilíbrio, obrigando a China a buscar pela oferta de proteína animal em outros países produtores para suprir a procura interna. Assim, as carnes de bovinos, suínos e aves do Brasil entram no mercado chinês com um fluxo maior e ganham o gosto deste gigante mercado consumidor. Por outro lado, a carne que sai do Brasil e de outros países para ser vendida por um preço melhor na China, melhora o ganho dos produtores que passam a cobrar um preço mais alto por toda a carne que produzem em seus territórios.

Plus – um fator brasileiro

A lucratividade de produtores de suínos no Brasil foi negativa em 2019, com um retorno anual de -8%, enquanto a lucratividade da produção de carne bonina é de apenas 7%, bem atrás de outros segmentos do setor agropecuário como o eucalipto, com 44%; feijão, com 28%; e soja, com 18%. Demonstrando claramente uma defasagem nos preços da carne, comprometendo a rentabilidade, em curto prazo, e a capacidade de reinvestimento do setor como um todo.

Plus – um fator amapaense

Mesmo com a queda de barreiras sanitárias em decorrência da saída do Amapá da zona de risco da febre aftosa, a tecnificação na produção de carne ainda está longe de ocorrer, pois depende de investimentos que modernizem nossos processos produtivos e nos levam às certificações exigidas pelos mercados nacional e internacional. A carne amapaense ainda não é um produto de exportação e abastece apenas 30% do mercado local, por isso, o aumento de preços ocorrido tem como consequência direta o produto que chega de outras regiões e, indireta, a oportunidade dos produtores locais de obterem um maior lucro.

No mercado, nada é para sempre e os sistemas de produção certamente encontrarão tecnologias e um caminho para elevar a produtividade e, certamente, os preços voltarão a ser um produto do equilíbrio entre a oferta e a procura, acomodado pela “mão invisível” da economia. Além disso, a China conseguirá recompor o seu rebanho em aproximadamente mais 1 ano, e passou a utilizar técnicas para ganhos de peso, produzindo porcos gigantes com até 500 Kg. Isso, e outros fatores, sem dúvida, podem colocar em ordem os preços da carne no mundo. 

E para fazer valer a máxima da economia liberal de deixar o mercado fazer a ordem, “laissez-faire, laissez-faire”!

 

Juan Monteiro – Jornalista e Administrador, Especialista em Marketing do Agronegócio

(Fontes: GV/Agro, Bloomberg, CNA, FAO, Ricam, Acriap)

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